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Cresce uso de proteínas alternativas na alimentação pet

A combinação entre a expansão do mercado, aumento da demanda por alimentos práticos, pressão por sustentabilidade, maior preocupação com alergias e intolerâncias alimentares e necessidade de reduzir a dependência de proteínas animais tradicionais têm impulsionado o crescimento das proteínas alternativas no pet food brasileiro.
Representando mais da metade do faturamento do setor animal no país, o segmento pet food também é influenciado pelos estudos ambientais.
“Dietas para cães e gatos podem ter impacto relevante na emissão de gases de efeito estufa, uso de terra, acidificação, eutrofização e consumo de água, especialmente quando há alta participação de componentes de origem animal. Já a utilização de proteínas alternativas, que não é modismo, gera sustentabilidade ambiental, segurança alimentar, competição por ingredientes e inovação industrial”, explica Luciana Oliveira, mestre e doutora em Nutrição de cães e gatos pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Jaboticabal e integrante do Colégio Brasileiro de Nutrição Animal Pet (CBNA PET) e da Sociedade Brasileira de Nutrição e Nutrologia de Cães e Gatos (SBNutripet).
Divididas entre cinco categorias, as proteínas alternativas podem ser produzidas a partir de insetos, especialmente Hermetia illucens — mosca-soldado-negra —, Tenebrio molitor — tenébrio/amarelo-da-farinha —, grilos, larvas de mosca doméstica e vegetais, como soja, ervilha, lentilha, grão-de-bico, feijão, arroz e milho e batata.
Também podem ser hidrolisadas, isto é, proteínas animais ou vegetais quebradas por hidrólise enzimática em peptídeos menores, microbianas ou de fermentação feitas de leveduras, fungos, algas e proteínas unicelulares ou cultivadas em laboratório, vindas de carne feita a partir de células animais em biorreatores.
“Esse último tipo ainda é uma tecnologia emergente com aplicação comercial limitada em pet food. O Reino Unido aprovou o ingrediente de frango cultivado para o setor em 2024, mas isso ainda não representa disponibilidade ampla no Brasil”, diz Luciana.
Segurança e digestibilidade de proteínas alternativas
Mas as proteínas de insetos realmente são seguras? De acordo com as evidências atuais, sim. Elas indicam que esses ingredientes podem ser consumidos e são nutricionalmente promissores quando bem processados, controlados microbiologicamente e formulados dentro das exigências nutricionais da espécie.
“Os insetos podem apresentar digestibilidade de proteína dentro da faixa observada para fontes proteicas convencionais, mas ainda são necessários mais estudos de longo prazo sobre segurança, adequação nutricional e efeitos funcionais. Quando falamos dessa indicação para gatos, o cuidado deve ser maior, pois eles são carnívoros estritos e dependem da oferta adequada de aminoácidos essenciais, taurina, ácido araquidônico e vitamina A pré-formada”, conta a integrante do CBNA PET.
Quando se fala em digestibilidade e valor biológico, isso varia muito conforme o componente utilizado.
No alimento feito de insetos, por exemplo, a digestibilidade proteica fica em torno de 90%, bem próxima à farinha de carne de aves. Já a ração feita com vegetais pode ter boa digestibilidade quando processada, concentrada ou isolada, porém frequentemente apresenta menor densidade de aminoácidos essenciais e maior presença de fibras.
Já as proteínas hidrolisadas tendem a apresentar alta digestibilidade por conterem peptídeos menores, mas o objetivo principal não é “maior valor biológico” e sim menor antigenicidade.
Por fim, aquelas cultivadas em laboratório, em teoria, podem ter perfil semelhante à proteína de origem animal, porém ainda faltam estudos clínicos robustos avaliando biodisponibilidade, segurança de longo prazo e uso terapêutico.
Sustentabilidade e palatabilidade de proteínas alternativas
Medida principalmente por análise de ciclo de vida e consideração dos indicadores, como emissão de gases de efeito estufa, uso de terra e água, eutrofização, consumo de energia, aproveitamento de coprodutos e geração ou redução de resíduos, a sustentabilidade é influenciada de forma diferente pelos alimentos pet.
Um estudo publicado por Pedrinelli et al. (2022) mostrou que dietas úmidas apresentaram maior impacto, enquanto dietas secas tiveram menor impacto e houve correlação positiva entre energia metabolizável proveniente de ingredientes animais e influência ambiental.
“No caso dos insetos, o potencial sustentável vem da conversão eficiente de biomassa, menor demanda por terra e possibilidade de uso de coprodutos orgânicos. Porém, a cadeia brasileira ainda é jovem, com limitações de escala, custo, tecnologia, financiamento e regulamentação”, diz Luciana.
E afinal, essa alternativa alimentar é boa ao paladar? Depende.
“Essa palatividade é complexa e vai levar em consideração o nível de inclusão, teor de gordura, aroma, processamento, palatabilizantes e formato do alimento. Em proteínas vegetais, ela pode ser menor quando há compostos amargos como os taninos, maior teor de fibra ou menor teor de gordura, mas isso pode ser corrigido industrialmente com formulação e palatabilizantes”, pontua a doutora.
Em cães, estudos indicam boa palatividade de alimentos contendo até 10% de farinha de larva de mosca-soldado-negra e até 24% de farinha de grilo.
Por outro lado, em gatos a aceitação foi mais variável, com melhor tolerância em níveis menores de inclusão, por exemplo, até 5% de farinha de larva de mosca-soldado-negra em alguns testes.
Referências:
ALEXANDER, P. et al. The global environmental paw print of pet food. Global Environmental Change, v. 65, 2020.
BOSCH, G.; SWANSON, K. S. Effect of using insects as feed on animals: pet dogs and cats. Journal of Insects as Food and Feed, v. 7, n. 5, p. 795-805, 2021.
CAVE, N. J. Hydrolyzed protein diets for dogs and cats. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 36, n. 6, p. 1251-1268, 2006.
DAVENPORT, G. M. et al. Effects of extruded pet foods containing dried yeast on digestibility, fecal characteristics, and palatability in dogs and cats. Translational Animal Science, v. 7, n. 1, 2023.
GOMES, J. G. C. et al. Insect production for animal feed: a multiple case study in Brazil. Sustainability, v. 15, n. 14, p. 11419, 2023.
KLINMALAI, P. et al. Comprehensive review of alternative proteins in pet food. Animals, 2025.
PEDRINELLI, V. et al. Environmental impact of diets for dogs and cats. Scientific Reports, v. 12, 2022.
SIDDIQUI, S. A. et al. Insect-based dog and cat food: a short investigative review. Animal Nutrition, 2023.
Fonte: Cães e Gatos / Rebecca Vettore
Publicação original:
Cresce uso de proteínas alternativas na alimentação pet